Molière: “Os clássicos transportam temas da humanidade para todo o sempre”

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Levar a palco Molière em 2022, 400 anos depois do nascimento do dramaturgo francês, continua a ser uma necessidade porque “é um clássico e os clássicos têm esta característica de transportarem temas da humanidade para todo o sempre”. Quem o diz é o encenador António Pires, que revisitou Don Juan, este ano, em palcos portugueses. António Pires é director artístico e co-director de programação do Teatro do Bairro, em Lisboa, onde nos recebe para nos falar sobre Molière. O encenador levou a palco "Don Juan" no Teatro do Bairro, em Fevereiro deste ano, e no Teatro Municipal Joaquim Benite, em Almada, em Maio. “É um clássico e os clássicos têm esta característica de transportarem temas da humanidade para todo o sempre e podem ser lidos, ser representados porque nós vemo-nos sempre lá”, resume a propósito de Molière. De todo o repertório do dramaturgo francês, António Pires escolheu Don Juan “por causa da hipocrisia” e da denúncia dessa mesma hipocrisia que atravessou os séculos e que se mantém extremamente actual. “Há um monólogo no fim em que ele fala da hipocrisia e eu acho que aquilo está muito actual. Acho que me apeteceu falar sobre a hipocrisia. O Don Juan é um personagem muito sincero, muito ingénuo. Ele tem todos os defeitos do mundo porque diz a verdade, faz só o que lhe apetece, não olha a meios, não está para seguir normas da sociedade e é por isso que ele é condenado. Mas, no fim, ele diz que vai fazer como os outros seres humanos fazem, ou seja, vai-se transformar num hipócrita. Vai-se disfarçar – e neste caso é com a religião, mas nós podemos transportar para outras coisas – e vai passar, com uma grande cara de pau, a mentir”, conta o encenador. Mais do que um sedutor, Don Juan é um materialista, um ateu, que desafia tudo e todos, não acredita em nada, é altamente cínico e profundamente triste. Este é um tipo de heróis ou anti-heróis que ecoam com o mundo de hoje. “Ele no fim diz: ‘Vou continuar a fazer as mesmas coisas mas vou ser como os outros. Vou tapar-me com a capa da religião e sob essa capa vou estar defendido e posso fazer as mesmas coisas todas, os mesmos erros todos, que vão todos defender-me.’ E isso acontece muito. Os grandes vigaristas, os grandes ladrões, os déspotas, os Putins desta vida têm muita gente a defendê-los e a dizer as coisas mais horríveis com uma cara de pau e com uma defesa, uma capa. Ou porque são presidentes, ou porque têm vestido umas roupas da Prada. Estão defendidos e conseguem fazer tudo, tudo, tudo o que o Don Juan fazia, sendo que não são castigados”, explica António Pires. A investigadora francesa especializada na difusão das obras de Molière em Portugal, Marie-Noëlle Ciccia, explicou à RFI, numa outra entrevista, que Molière foi silenciado entre as primeiras traduções no século XVIII e a Revolução dos Cravos devido ao lado revolucionário de muitas das suas personagens que abalavam a ordem política, moral e religiosa do país. O maior silêncio foi em torno de D. João, com a primeira edição portuguesa a ser publicada apenas em 1971 e tendo sido preciso esperar por 1986 para a primeira representação. A obra era considerada um ataque aos valores morais e religiosos e, além disso, aproximava o público da personagem revolucionária. É o que destaca António Pires, ou seja, apesar de Don Juan ter todos os defeitos, o público continua com ele porque se reconhece. “Por isso é que foi muito condenado e por isso é que é muito importante fazer [a peça] hoje”, continua o encenador. Apesar de libertino, Don Juan é uma personagem lúgubre, um herói trágico, que corre para a morte. Então, que comédia é esta? António Pires lembra, para começar, que “a comédia e a tragédia estão muito próximas”. “É aquele descaramento e a maneira como ele dá a volta às situações que nos fazem rir. Mas como é um texto muito, muito, muito inteligente, não é um riso fácil, não é uma comédia pelo riso. Nós rimos mas não deixamos de pensar, ou seja, o que ele está a fazer, o público acaba sempre por ter um juízo de valor sobre aquilo.” Em termos visuais, António Pires optou por uma cenografia de um teatro à italiana, com figurinos de época porque, para ele, “o mais importante não é as coisas serem coladas à realidade de hoje, é o público saber que aquilo é uma coisa que foi escrita há 400 anos ou 300 e tal e ver coisas novas, coisas do olhar de hoje”. Em suma, “criar coisas absolutamente novas a partir de um objecto que tem esta idade”. Esta foi a primeira vez que António Pires encenou uma peça de Molière mas diz que é para repetir. “De certeza absoluta”, conclui.

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